Entre salas, celas e vozes: relatos sobre formação escolar em prisões femininas

Autor: Ellen Taline de Ramos

Resumo: Este trabalho tem como objetivo compreender como se dá a escolarização nas prisões femininas do estado de São Paulo, bem como as percepções das alunas, das professoras e dos professores envolvidos neste processo. Ao longo do trabalho, são apresentadas discussões a respeito das estatísticas ligadas ao sistema penal, a história e organização das prisões tal como as conhecemos hoje, as especificidades de gênero e suas interfaces com o sistema prisional, a escola na prisão, seu surgimento e desenvolvimento, e como os teóricos da escola de Frankfurt contribuem para a compreensão da temática deste estudo. A coleta de dados desta tese foi realizada por meio de visitas a unidades femininas do estado e de entrevistas semiestruturadas com alunas, professoras e professores. Além disso, realizaram-se observações em sala de aula a fim de compreender a organização e o andamento das aulas. Após a transcrição literal das entrevistas, realizou-se a análise de conteúdo, que gerou quatro categorias. Os principais resultados encontrados foram de que, no encontro marginal entre professoras e professores precarizados e mulheres presas, há uma potência de humanizarem-se e também uma hipervalorização alienante (aluna ideal e melhores professores); além disso, uma das principais motivações para a volta à escola foi para que as mulheres presas sirvam de exemplo para seus descendentes, reproduzindo a perspectiva dos papéis social (im)postos às mulheres na sociedade. Viu-se também a escola como possibilidade, ainda que remota, de ascensão social. Neste ponto, discursos bastante idealizados surgiram. A última categoria analisada traz as precariedades das salas de aula nas prisões e a falta de suporte técnico e pedagógico para os docentes. Por fim, foi possível verificar as contradições do espaço que se pretende educativo dentro de uma instituição punitiva, sendo que esta última acaba por delinear todas as regras da escola, interferindo direta e indiretamente em seu cotidiano. Além disso, os encontros entre professoras/professores e alunas, ao mesmo tempo em que se mostra potente, se apresenta carregado de valores ideológicos e de alienação, o que contribui para a não ocorrência da formação cultural, propagando a semicultura. Desta forma, compreende-se que este trabalho de cunho histórico, político, social e de gênero atingiu o que se propôs, quanto a analisar seus objetivos e, sobretudo, olhar e dar voz ao socialmente invisível e inaudível. No entanto, diante do que se mostra como possibilidades futuras, é essencial que este não seja o fim desta discussão – o ponto final deste trabalho constitui-se apenas como uma lacuna provocante e instigante, para novos parágrafos, lutas e resistências.

Orientador: Gustavo Martineli Massola

Área de concentração: Psicologia Social

Instituição: Universidade de São Paulo / Ano: 2019

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Sobre Cristina de Carvalho

Arquivista na NTX It Solutions, especialização em Gestão Eletrônica de Documentos pela USCS e MBA em Gestão da Informação em Saúde pela UNISA. Foi Bibliotecária na Faculdade de Ciências e Saúde de São Paulo (FACIS) e Auxiliar de Biblioteca na UNISA. Bibliotecária formada pelo UNIFAI.

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